Como estou usando inteligência artificial para criar uma campanha de RPG mais imersiva


por Filipe Lutalo

Na postagem “Como trazer imersão para uma aventura de RPG usando o Horror Espacial?”, mostrei como comecei a preparar uma aventura de horror espacial inspirada em Alien. Desde então, a campanha ganhou personagens, documentos corporativos, uma nave e uma identidade visual própria. Boa parte desse material foi desenvolvida com o apoio de ferramentas de inteligência artificial — mas não apertando um botão e aceitando o primeiro resultado.

O que é IA generativa?

Segundo o site IBM, a IA generativa, também chamada de IA gen, é a inteligência artificial (IA) que pode criar conteúdo original, como texto, imagens, vídeo, áudio ou código de software, em resposta a um prompt ou solicitação do usuário. 

A IA gen em hipótese nenhuma funciona como um arquivo que contém exatamente a resposta desejada. Ela recebe instruções, interpreta padrões e apresenta uma possibilidade, que ainda precisa ser avaliada e modificada. Ela precisa ser treinada para que as respostas sejam satisfatórias e, é nesse treinamento que a fronteira da ética pode ser rompida.

Como a IA pode ajudar um mestre de RPG?

A IA gen não é uma panaceia para todos os problemas, mas com um bom uso pode ajudar mestres e jogadores a criarem aventuras únicas.

Transformar referências simples em materiais de jogo

Uma das personagens que mais deu trabalho foi a nave DTR-07 PEABIRU. Eu tinha uma ideia de como eu queria a nave. Criei um esboço, um croqui em papel milimetrado e depois solicitei a IA que transformasse o material em uma planta de nave mais imersiva e profissional.

Durante o processo de criação tive muitos problemas. Solicitar a IA que criasse uma nave completa com três conveses, área de carga e engenharia se mostrou uma tarefa complexa que remetia a resultados enviesado e cheios de erros e alucinações.

Eu corrigi todos os problemas criando a nave toda em escala milimetrada e pedindo a IA que transformasse os croqui em plantas “arquitetônicas” dos espaços da nave. Isso teve um resultado muito bom na mesa. Os jogadores relataram que pela primeira vez estavam jogando com um cenário que os transportavam para dentro de uma nave. Todos ficaram impactados positivamente pela qualidade do material apresentado.

Organizar as histórias dos personagens

Outro uso que fiz da IA foi solicitar que ela compilasse as histórias dos personagens. Os jogadores responderam um questionário sobre a vida e habilidade de seus personagens. Com base nas respostas, a IA criou históricos coerentes com os perfis listados.

“A IA não criou os personagens”, ela ajudou a organizar informações dispersas em cada pergunta. As decisões, os conflitos e segredos foram criados pelos jogadores.

Criar imagens personalizadas para a campanha

Antes da IA gen eu procurava imagens para ilustrar a minha aventura. Muitas vezes, quando eu criava um personagem, a imagem me levava a colocar características no personagem para que ele ficasse mais fiel a imagem, mas não ao que eu esperava. Com a IA, posso criar um conjunto de imagens personalizadas para a campanha e mais fiel ao que eu imaginei.

Entretanto, muitos resultados podem ser inconsistentes, cheios de vicios e elementos visuais errados. Até criar um comando adequado, muitas vezes varias tentativas são feitas. 

Produzir documentos e props narrativos

Outro uso da IA gen é a criação de props. Relatórios corporativos; credenciais; registros da tripulação; mensagens de emergência; comunicados internos; mapas e muito mais. Eu já sei quais props que gostaria de criar para tornar as “sessões de RPG memoráveis”. A questão é que se eu fosse utilizar outra ferramenta eletrônica como o LibreDraw para criar uma arte, o processo seria muito mais demorado. A IA acelera o processo de criação, mas a concepção da ideia ainda tem que ser do mestre.

O que a IA não deve fazer pelo mestre

Em muitas situações, você perceberá que a IA gen é um caos informativo. A cada comando que você dá, ela lhe retorna com sugestões que podem melhorar ou piorar muito as suas aventuras.

O mestre do jogo jamais deve deixar a IA decidir o tema central da campanha por ele. Converse com seus jogadores e investigue o que eles gostariam de jogar. A Sessão Zero deve ser feita com os jogadores e não com a IA. Quando surgir conflitos nas suas mesas ou no enredo, a IA não deve definir sozinha os conflitos dos personagens. Esse é o papel de mestre.

Outro ponto que a IA gen pode ser contraproducente é o mestre usar as toneladas de texto que ela cria e despejar na sessão sem uma revisão. Textos e imagens pode conter muitos erros, que precisam ser revisados para que a campanha seja convincente.

Jamais use a IA para reproduzir deliberadamente o trabalho de um artista. E pense em não substituir profissionais quando o projeto exige trabalho autoral especializado. Quando a ferramenta começa a tomar todas as decisões, ela deixa de facilitar a criação e passa a empobrecer a voz do mestre.

O que aprendi usando IA em Protocolo de Recuperação

Esse primeiro contato com a ferramenta me trouxe vários aprendizados:

  1. Instruções vagas produzem resultados genéricos e ruins;
  2. Referências visuais, como no caso dos croquis da nave melhoram o resultado;
  3. Tudo precisa de revisão;
  4. Exige direção humana senão a ferramenta se perde nela mesma
  5. O melhor uso está na transformação de uma ideia existente;
  6. erramenta poupa tempo para executar, mas não substitui intenção;
  7. Materiais personalizados podem aumentar o envolvimento dos jogadores.

Por que o uso de IA provoca tanta discussão?

Um prompt de comando como “Crie uma imagem (ou texto) imitando o estilo do RPG Dungeon and Dragons” à primeira vista. parece inocente. Entretanto, ele carrega um exemplo ético que abala todo uma rede de profissionais criativos como ilustradores e autores. 

Estou falando de plágio. A ação da IA gen é copiar ou imitar o estilo. Eticamente duvidoso, não? Outra condição que levanta discussões é que mesmo que não a mandemos explicitamente copiar ou se basear em algo, ela precisaria ser treinada. Ela precisa acessar informações para aprender e cria.

Suponhamos que criemos um cenário punk gótico. A IA gen precisa ser apresentada ao máximo de informações sobre para que ela não erre e permaneça fiel ao tema. Entretanto, ela concorre com um profissional humano que estudou e se dedicou anos para construir esse conhecimento. Um profissional que demorará horas ou dias para finalizar um texto ou imagem, e a IA gen a fará em segundos.

Ainda não se tem uma ideia formada se é ético ou não para criar uma obra toda nova. Entretanto, o impacto já é sentido. Ilustradores e autores estão vendo os pedidos diminuirem. A cadeia criativa já está sendo afetada.

A IA é uma ferramenta, não a autora da campanha

A IA generativa não criou Protocolo de Recuperação. Ela não reuniu os jogadores, não escolheu o clima da aventura, não decidiu quais segredos seriam revelados e não conhece as reações da mesa. O que ela fez foi me ajudar a transformar algumas ideias em mapas, documentos, imagens e materiais que talvez eu não conseguisse produzir sozinho com o mesmo tempo disponível.

Ela não funciona como substituta da criatividade, mas como facilitadora de uma visão que já pertence ao mestre. Hoje, eu consigo dar uma coesão narrativa e visual para a campanha que sozinho, necessitaria de meses para construir e começar a jogar.


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