Rodrigo Moura de Crônicas de Mallackart em ... é pro Fantástico!?!


por Filipe Lutalo

A trajetória de Rodrigo Moura começou muito antes de ele conhecer o RPG. Ainda criança, criava personagens, inventava mundos e transformava qualquer desenho em uma nova aventura. Aos 14 anos, ao ser convidado para sua primeira mesa de RPG, encontrou a ferramenta perfeita para algo que já fazia naturalmente: contar histórias.

Décadas depois, essa paixão deu origem às Crônicas de Mallackart, um projeto que une cenário próprio, sistema em desenvolvimento e uma produção audiovisual de alto nível. Com campanhas envolventes, convidados do universo da dublagem e do entretenimento e uma comunidade cada vez mais participativa, Mallackart se torna uma das grandes referências da nova geração de RPGs transmitidos pela internet.

Nesta entrevista para o É pro Fantástico!?!, Rodrigo revela como nasceu o universo de Mallackart, fala sobre as influências que moldaram seu trabalho, explica por que o cenário é mais importante para ele do que qualquer sistema de regras e compartilha sua visão sobre o crescimento do RPG brasileiro. Esta conversa mostra como um projeto construído com dedicação pode transformar uma mesa de RPG em uma experiência capaz de conquistar milhares de espectadores.



RPGames Brasil: Para começar, como foi seu primeiro contato com o RPG e em que momento você percebeu que queria criar suas próprias histórias e mundos?

Antes de mais nada, obrigado por me receber aqui. É uma honra pra mim. E eu preciso dividir essa pergunta em duas. Desde muito criança eu gostava de contar histórias. Eu não tinha nem discernimento do que era “ficção” e eu contava que “eu tinha ido em tal lugar e encontrado tal personagem que eu gostava e que a gente tinha vivido determinada aventura.” Um pouco mais velho, eu comecei a criar personagens e mundinhos pra eles viverem… mas nada disso estava formatado. Não era HQ, não era livro… Eram só desenhos soltos de personagens recorrentes, às vezes em tirinhas.

Até que, aos 14, em um retiro de carnaval da minha igreja, eu conheci um pessoal mais velho do que eu, que sempre estava junto, em roda, jogando alguma coisa que só eles jogavam – e mais ninguém. O mestre da mesa me viu isolado, desenhando, sem ter muito a ver com o pessoal do surfe e nada a ver a galera do futebol. Um nerd branquelo e desengonçado, ouvindo Pink Floyd em um walkman. Me lembro de estar em uma rede, me balançando com o pé, quando uma sombra cobriu o meu desenho e me fez olhar pra cima. Era o primeiro igual que eu via na vida. Um nerd mais velho me convidou pra jogar e eu fui.

O RPG me trouxe um formato maravilhoso pra algo que eu faço desde que aprendi a falar: Contar histórias.




RPGames Brasil: As Crônicas de Mallackart cresceram muito rápido no Youtube e nas redes sociais. Quando o projeto deixou de ser apenas uma mesa entre amigos e passou a ser encarado como uma produção de conteúdo?

Minha esposa é uma verdadeira “businesswoman”. Nós nos conhecemos em 2018, em uma mesa de RPG. Eu estava ensaiando uns textos pra transformar Crônicas de Mallackart em romance (provavelmente uma série. Minha primeira resposta deve ter deixado claro o quanto eu sou prolixo). Diferente de mim, ela é antenada, acompanha a cena do RPG, viu o crescimento das editoras nacionais e sempre olha pra objetivos com um plano, metas e estrutura em mente.

Depois que ela jogou em Mallackart e se apaixonou (por nós dois), ela passou a insistir pra eu criar conteúdo, falar do assunto, compartilhar com a internet… Mas eu sempre fui reticente em aparecer diante de uma câmera (até porque minha carreira toda foi atrás dela).

Quando nossos amigos do boardgame ouviram a ideia dela de o canal, eu fui voto vencido. O argumento que me pegou foi: A gente vai passar a vida construindo os sonhos dos outros. Isso paga as nossas contas mas nos distancia do nosso. Isso me fez entrar no modo “dedicação máxima”. Ela é a diretora do show, que cuida de toda a parte técnica e eu, o criativo, que cuida da história do jogo em si.


RPGames Brasil: Mallackart possui identidade própria, com cenário, lore e personagens recorrentes. Como nasceu esse universo e quais foram suas principais inspirações durante a criação?

Mallackart – antes mesmo de ter esse nome – nasceu como quase todos os mundos autorais de RPG. A primeira aventura que eu escrevi pra mestrar pela primeira vez precisava se passar em uma cidade. Na aventura seguinte, essa cidade precisava de uma aldeia vizinha. Ao longo da campanha, a cidade havia se tornado um reino… Depois vieram os reinos vizinhos e a necessidade para o nome do “mundo”. Eu sempre amei história – especialmente antiga. Império Romano, Carlos Magno, Sacro Império, Cruzadas, Guerra dos Cem Anos… Eu comecei colocando um pouco de fantasia em um cenário muito análogo ao nosso mundo.

Um amigo amado me apresentou “O Senhor dos Anéis” e parecia que eu tinha nascido outra vez. Eu conhecia fantasia mastigada, subproduto do subproduto. Videogames como Golden Axe e Zelda sempre me chamaram atenção… Mas conhecer a obra de Tolkien foi como “encontrar um lar”.

Eu pude vislumbrar o quão profunda uma obra pode ser. E meu nível de exigência comigo mesmo e com Mallackart foram pra outro patamar.

Existe, também, muita influência de Warcraft III – especialmente na ideia de trazer culturas das raças pra fora do estereótipo de cada uma. E, por último, Dragon Age Origins (o primeiro jogo da franquia) me trouxe uma ideia de como conciliar a fantasia com uma roupagem histórica e amarrar tudo com um nó de verossimilhança – que é o que eu mais amo.



RPGames Brasil: Ao invés de utilizar um sistema comercial já estabelecido, você optou por desenvolver suas próprias regras. O que motivou essa decisão?

Essa é a primeira resposta curta que eu tenho pra dar: Porque eu não posso usar GURPS. A decisão não foi minha, foi da Steve Jackson Games que tende a perseguir e desmonetizar qualquer canal que ganhe dinheiro usando o jogo deles. Mas, Mallackart não é casado com nenhum sistema.

A obra da minha vida é o cenário e não as regras do jogo. Eu também já mestrei em Mallackart usando D&D 3/3.5, Storyteller e até Defensores de Tóquio. Cada sistema é bom pra um tipo específico de aventura e Mallackart comporta todas elas.


RPGames Brasil: Muitos espectadores comentam que a experiência lembra grandes produções internacionais de RPG. Como você enxerga a influência dos “actual plays” modernos na forma de jogar e apresentar RPG ao público?

Minha formação é em cinema. Minha esposa é diretora de fotografia. A qualidade técnica que a gente tem vem das nossas experiências profissionais prévias, equipamento que a gente já tinha por conta do nosso trabalho com audiovisual… O cenário foi feito por nós dois. Eu fiz um projeto e uma conta de quanta madeira a gente precisaria pra construir uma mesa triangular e o cenário. Amigos fizeram uma grande vaquinha e a gente começou a medir, cortar, colar, aparafusar… Tudo com muito carinho, suor e dor nas costas!

Eu não sei como os outros RPG-Shows fazem suas jogatinas, mas a única diferença entre a forma que EU mestro no Youtube e fora dele, é que – para as câmeras – eu sou obrigado aparar a barba e arrumar o cabelo.


RPGames Brasil: As campanhas contam com a participação de dubladores, atores e convidados de diferentes áreas. Como surgiu a ideia de reunir esse perfil de jogadores na mesa? 

Eu conheci o Serginho no Projac, fazendo novela. Eu, sempre atrás das câmeras, ele como ator. Dois nerds que clicaram e ficaram amigos. A gente fez curta-metragem junto, piloto de seriado… Ele a Bia e o Lacarv sempre foram amante de Board-Games então, experimentar RPG era só o caminho natural das coisas. A Miriam tinha jogado RPG uma vez há muitos anos e ficado com aquele gostinho bom que o jogo dá. Quando surgiu a ideia de voltar a jogar – e fazendo disso um produto – ela se animou na hora.

Eles se apaixonaram por Mallackart, pela lore e pela liberdade de criar os personagens que eles quisessem. É a razão pela qual todos nós amamos RPG.



RPGames Brasil: A qualidade de produção é um dos elementos mais comentados do canal. Como você equilibra narrativa, preparação de sessões e produção audiovisual sem perder a espontaneidade do RPG?

Cenário, uma vez pronto, está pronto. É só sentar e jogar. Setup de luz é a mesma coisa. Como eu disse, minha esposa dirige o aspecto “tv-show” do Crônicas e cuida de tudo o que é técnico. Microfona todo mundo, configura e fica atenta às câmeras, lida com o estúdio, estratégia de publicação de conteúdo, cronogramas… ela é o nosso motor.

E isso me deixa livre pra planejar a história, preparar sessão, fazer fichas de NPCs, desenhar mapas e produzir props (como as cartas e documentos da sessão 7: O Dossiê Sangrento).


RPGames Brasil: O crescimento do canal trouxe uma comunidade cada vez mais participativa. De que forma o público influencia ou inspira o desenvolvimento das campanhas de Mallackart?

O público dá um feedback maravilhoso. É bom, por exemplo, saber quais NPCs se tornaram queridos e precisam aparecer mais vezes… E eu recebo dicas maravilhosas. Teve um rapaz que falou “Você deveria dar a ficha dos animais que a Calina controla na mão da Bia” Certamente eu vou passar a fazer isso.

A comunidade é muito gentil conosco e eu AMO assistir com todo mundo e participar do chat ao vivo. E um dia que eu sei que vou encontrar aquelas mesmas pessoas por quem eu já tenho muito carinho.



RPGames Brasil: Criar um cenário próprio, manter campanhas longas e produzir conteúdo regularmente exige um esforço enorme. Qual foi o maior desafio que você enfrentou até aqui?

Certamente é a produção de conteúdo. Desde que o nosso Baby Paladino nasceu, eu assumi a edição dos episódios. Colocar música, cortar as idas ao banheiro, fazer as legendas com os nomes nórdicos esquisitos… tudo isso equilibrando com o trabalho que paga contas, uma vez que o canal ainda não gera receita.

O tempo pra gravar a tão prometida playlist de regras, lore e até mesmo fazer cortes e reels com partes da sessão… é – definitivamente – a parte mais difícil! Não vejo a hora e sermos capazes de contratar alguém pra editar – assim eu posso só escrever e gravar.


RPGames Brasil: O RPG brasileiro vive um momento de grande visibilidade nas plataformas digitais. Como você enxerga o papel das Crônicas de Mallackart nesse crescimento e quais são seus próximos objetivos para o projeto?

Eu não acho que nós sejamos responsáveis por esse crescimento em nenhuma instância. Nós acabamos de chegar na cena do RPG e, embora estejamos sendo muito bem recebidos pelo público e pelos outros criadores, quem fez o esforço de abrir espaço foram eles.

Nosso papel é o de pegar outra pá e picareta e seguir pavimentando essa estrada junto com quem começou antes de nós. O interesse comum é formar mais e mais RPGistas. Criar demanda pra nossa oferta.

Nosso próximo objetivo é gerar receita: Lançar linha de produtos, o sistema de RPG que criamos (ou fazer parceria com um sistema pronto e migrarmos a mesa pra ele) e, por fim, coroarmos tudo com uma série animada.


RPGames Brasil: Obrigado pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional de RPG. Que conselho você daria para quem quer criar RPG no Brasil hoje?

Se criar RPG significa fazer vídeos falando do assunto, o conselho é: Seja constante! Faça lista de conteúdos e ideias que você pode abordar, grava E EDITA tudo. Vídeo gravado na galeria do celular não serve pra nada. FINALIZA SEUS VÍDEOS!

Agora, se criar RPG significar começar uma mesa streamada, meu conselho é: VÁ DIRETO PRA AVENTURA! O expectador não quer ficar ouvindo blablabla sistema, blablabla risadinha. Ele quer uma coisa: CENAS QUE CONTAM HISTÓRIA. Não estou falando pra negligenciar Lore e Sistema. O cenário é o contrabaixo. O Mestre é a bateria. A história é a guitarra. Os personagens dos jogadores são os vocalistas.



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