Rafael Balbi (Café com Dungeon) em… é pro Fantástico!?!


por Filipe Lutalo


Entre os nomes que mais influenciaram a discussão sobre mestragem no RPG brasileiro nos últimos anos, Rafael Balbi conquistou um espaço de destaque. Criador do Café com Dungeon, autor de O Caminho do Mestre Cafeinado e pesquisador do movimento Old School Renaissance (OSR), ele se tornou uma referência ao propor uma visão prática, acessível e reflexiva sobre o ato de narrar e jogar RPG.

Nesta edição do É pro Fantástico!?!, Balbi relembra a criação do Café com Dungeon, fala sobre os desafios da produção de conteúdo independente, compartilha as principais lições reunidas em O Caminho do Mestre Cafeinado e apresenta sua visão sobre o futuro da comunidade brasileira de RPG. Uma conversa repleta de reflexões para mestres experientes e, principalmente, para quem deseja dar os primeiros passos atrás do escudo.


RPGames Brasil: Para começar, como surgiu a ideia de criar o Café com Dungeon? Você imaginava que o projeto teria o alcance que tem hoje na comunidade de RPG?
O projeto nasceu como um produto secundário dentro do canal Regra da Casa, pensado inicialmente como apoio às transmissões de gameplay ao vivo. A proposta de ter episódios diários surgiu de uma brincadeira, mas o formato acabou criando o hábito de escuta e gerou um impacto profundo na comunidade. Com o encerramento do canal, o podcast continuou de forma independente e consolidada.

RPGames Brasil: Ao longo da sua trajetória com o podcast, quais foram os momentos mais marcantes ou transformadores para você como criador de conteúdo?
Foram três:

Financiamento coletivo e saúde: a rotina de editar e gravar diariamente sozinho comprometeu a minha saúde e o trabalho profissional de designer. A abertura do financiamento coletivo permitiu contratar um editor, restabelecendo o equilíbrio pessoal e a sustentabilidade do projeto.

A marca dos 1.000 episódios: A reta final da primeira fase contou com depoimentos dos ouvintes, mostrando como o projeto transformou e aprofundou as experiências nas mesas de jogo.

Retorno na segunda temporada: A volta após uma pausa de mais de um ano, agora com periodicidade semanal, foco propositivo e pesquisa aprofundada, foi consolidada com o terceiro troféu Goblin de Ouro.

RPGames Brasil: O Café com Dungeon se tornou uma referência para mestres de RPG. Na sua visão, o que mais falta hoje para quem está começando a mestrar?
Faltam referências que apontem caminhos simples para começar a jogar. O mercado tende a promover a figura do mestre performático, ferramentas digitais complexas (VTTs) e regras pesadas, criando barreiras de entrada desnecessárias. É fundamental desmistificar a mestragem e mostrar que uma mesa exige muito pouco para ter início.

4.Você aborda muitos conceitos sobre mestragem e jogo na prática. Como o contato com a audiência influenciou a forma como você enxerga o RPG?
Por abordar temas provocativos e contra-hegemônicos, o retorno do público traz discussões intensas, trocas com diferentes perfis de jogadores e aprendizado contínuo. Por outro lado, também desperta resistências e ataques de quem se apega a fórmulas tradicionais. No saldo geral, esse atrito movimenta o debate e reflete diretamente na evolução do conteúdo produzido.

RPGames Brasil: O livro O Caminho do Mestre Cafeinado Vol. 1 reúne muitas dessas reflexões. Como foi o processo de transformar ideias do conteúdo digital em um material estruturado em livro?
A estrutura do Twitter/X serviu como um limitador criativo fértil, forçando a síntese de 100 dicas em poucos caracteres. Com o texto base já pronto na rede social, o esforço de adaptação para o livro físico foi voltado essencialmente ao design visual, diagramação e organização temática.

RPGames Brasil: Entre os temas do livro, quais você considera mais importantes para quem quer evoluir como mestre de RPG?
O ensinamento mais relevante é permitir-se conduzir sessões ruins. Reconhecer que uma sessão fraca faz parte do processo e que a responsabilidade não recai unicamente sobre uma pessoa liberta o mestre da pressão de perfeição e elimina o receio de jogar.

RPGames Brasil: Existe alguma mudança na sua forma de mestrar hoje em comparação com quando começou o Café com Dungeon?
A condução de mesa evoluiu de uma postura analítica e reflexiva para uma abordagem prática e propositiva. Esse amadurecimento resultou no Old Fantasy, uma sistematização de princípios e boas práticas de jogo old school desenvolvida em diálogo com a comunidade.

RPGames Brasil: O seu conteúdo frequentemente incentiva uma abordagem mais leve e prática do RPG. Como você equilibra teoria e prática na hora de ensinar mestres?
O papel não é o de um instrutor tradicional, mas de um facilitador de debates. A ênfase está em reduzir a barreira técnica, estimular o hábito de jogar e desenvolver a autoconsciência do mestre sobre a sua própria mesa, permitindo que cada um identifique e trabalhe seus pontos de melhoria.

RPGames Brasil: Hoje vemos um crescimento grande de criadores de conteúdo de RPG no Brasil. Como você enxerga esse movimento e o impacto dele na comunidade?
Trata-se de um fenômeno de cauda longa (long tail), acelerado por plataformas como o TikTok. Embora a facilidade atraia produtores sem foco ou consistência, esse mesmo movimento permite que vozes autênticas surjam e encontrem nichos consolidados. Diferente do passado, a comunidade hoje é diversa e segmentada, permitindo que grupos joguem o que amam sem conflitos de estilo.

RPGames Brasil: Muitos leitores e ouvintes aguardam uma continuação do seu trabalho. Podemos esperar o Volume 2 de O Caminho do Mestre Cafeinado? Já existe algo em desenvolvimento?
O texto do Volume 2 de O Caminho do Mestre Cafeinado está em fase de conclusão. O projeto vem sendo amadurecido com calma e entrará na fase de organização e diagramação antes de ser apresentado à editora New Order.

RPGames Brasil: Obrigado pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional de RPG. Que conselho você daria para quem quer criar RPG no Brasil hoje?
Defina um propósito claro antes de começar. A produção de conteúdo exige dedicação contínua e traz pouca recompensa financeira imediata; sem uma causa bem estabelecida ou uma voz própria, a tendência é abandonar o projeto frente às primeiras barreiras. Consumir referências e entender onde você quer chegar é o que sustenta o trabalho no longo prazo.

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