Luciano Jorge de Jesus em... É pro fantástico?!?


Um dos grandes nomes da mídia
 de RPG brasileira

- por Filipe L. Dias

Caros rpgamers, hoje trazemos para vocês Luciano Jorge de Jesus, mestre de RPG, Professor da rede pública de BH e MG. RPGista, colaborador do Jornal Empoderado e membro do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Em sua primeira publicação, ele integrou a coletânea de artigos intitulada RPG Indagações com o artigo “Sobre formas de narrar e jogar: O afrofuturismo em nossas mesas de RPG”.

RPGames Brasil: Luciano, obrigado pelo seu tempo e carinho para responder essa entrevista. Diga-nos, quem é você?

Luciano Jorge de Jesus: Eu sou Luciano. Professor da rede pública de Belo Horizonte e do Estado de Minas Gerais. Além disso tenho tentado contribuir com o debate racial nos diferentes espaços que acompanho, mas também tenho ocupado o espaço das streams de RPG, primeiro tentando contribuir com canais aliades, como Formação Fireball, Ordem do Dado e nesse ultimo ano tenho realizado algumas coisas com o meu canal na twitch: o Jogos e Quilombagens.

R.B.: A primeira vez que conversei mais próximo de você foi no Evento da Ethernalys que debatia Politica e RPG. O RPG é uma forma de mudança sócio-política?

Luciano Jorge de Jesus: Não sei... Eu penso que o RPG como qualquer jogo, prática de lazer e divertimento pode contribuir para alguma mudança, mas vai depender também do interesse dos grupos em também mudar, sair do lugar, buscar novas interlocuções. Então, não basta somente o jogo de RPG que tenha a melhor proposta se o coletivo não propõe entender isso.


R.B.: Qual a sua relação com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol? A que ele se destina

Luciano Jorge de Jesus: Eu componho o Observatório desde o fim de 2019. Mas eu já colaborava com o espaço desde 2017, momento que eu conheci o Marcelo Carvalho que é o fundador do Observatório. Em linhas gerais o Observatório da Discriminação Racial no Futebol é um espaço de denuncia a ações racistas no futebol, mas que tem sido notado como um espaço de formação e interlocuções para o enfrentamento ao racismo, mas também como um espaço de enfrentamento a outras opressões no esporte.

R.B.: Como esse trabalho comunica com o RPG?

Luciano Jorge de Jesus: Acho que mais na forma como eu penso o RPG levando em consideração o aprendizado de outras narrativas que não sejam somente aquela referendada por escritores brancos, europeus... Acho que a inspiração vem aí. Eu consigo notar com mais cuidado a forma como diferentes formas de jogar RPG podem ser apresentadas e que para isso eu vou precisar acessar outras fontes de inspiração.

R.B.: Quando e como foi sua experiência inicial com o RPG?

Luciano Jorge de Jesus: Eu sou filho do subúrbio. Então eu vivia na casa da minha tia que era um ponto de encontro da meninada. Em uma oportunidade eu cheguei na casa da minha tia e os caras estavam sentados em circulo, com uma trilha sonora de fundo e com algumas folhas na mão. Eu cheguei e um amigo meu me disse algo “quer jogar? Ó, você é um vampiro e talz...” e eu joguei e me apaixonei. Achava muito legal a ideia de contar histórias de forma improvisada e encantado com os dados de 10 lados. Depois daquilo eu sempre colava em algum grupo com amigos que moravam em bairros vizinhos.

R.B.: O que tem jogado atualmente? Consegue manter mesas regulares?

Luciano Jorge de Jesus: Eu fiquei um tempo sem jogar RPG. De 2007 até 2015. Quando voltei comecei a construir interlocuções com diferentes pessoas e aí começou a rolar mesas de RPG. Hoje em dia eu não passo a semana sem jogar RPG. Tenho jogado Rastro de Cthulhu, D&D 5ª edição e mais uma mesa de Tales From the Loop. Todas em Stream. Mas, eu quero jogar mais de modo mais informal, sem me preocupar com OBS, sem preocupar com chat.


R.B.: Nos fale um pouco do seu canal no Twicht - Jogos e Quilombagens. Como surgiu a ideia? Que temas aborda?

Luciano Jorge de Jesus: No meio da pandemia recebi um jogo de Playstation que eu estava aguardando muito: The Last of Us pt.2. E o primeiro jogo eu joguei todo, do inicio ao fim ao lado da minha irmã mais nova, a Ana Carolina. E como estávamos afastados por conta da pandemia, eu resolvi fazer as transmissões pela twitch. Então o canal era somente eu, a Ana e as vezes o namorado dela o Thiago. E aí eu ficava jogando e conversando com ela, refletindo sobre o jogo e tudo mais. Algumas pessoas próximas diziam que eu deveria puxar alguma coisa na twitch, para jogar RPG e para refletir sobre jogos digitais e analógicos. O fim do ano passado eu segui deixando o meu nome no canal, mas eu queria que o canal tivesse mais a cara de uma ideia do que a minha face. E aí, um pouco antes de receber o “RPG Indagações” eu faço uma postagem pra começar a pensar em reunir uma galera preta, mas também outras minorias políticas para jogar RPG. Depois disso, começo a pensar na ideia do canal e nome surge, meio que inspirado no nome do canal de um amigo querido, o Luiz Lindroth. O canal dele se chama “Dados e Contracapas” e eu tava pensando um pouco... Aí eu pensei que o ato de aquilombar me ajudaria. Daí surge o nome.

Eu tenho abordado no canal as leitura coletiva de jogos de RPG, também tenho jogado alguns jogos digitais enquanto converso com quem me segue, além dos espaços de conversa com pessoas convidadas. Agora no mês de agosto começamos a jogar RPG no canal.

R.B.: Quais são os seus sistemas de RPG favoritos?

Luciano Jorge de Jesus: Vários. Mouse Guard, Fronteira do Império, Tormenta, D&D, Lenda dos 5 Anéis, Marvel Heróic RPG, Hora de Aventura, Deloyal, Magos Lacunares da Torre Púrpura, Belregard...


R.B.: Você comenta que as lives e streams de RPG são muito brancas, há pouca representatividade negra? O que significa isso?

Luciano Jorge de Jesus: Acho que o debate tem sido realizado. Acho que temos mais canais hoje, mas ainda acho que pode melhorar. Temos muita gente legal jogando RPG: Minas, pretos e pretas, comunidade LGBTQIA+, Pessoas com Deficiência... Esse quadro tende a mudar a partir do momento em que a gente se encontra. E eu noto que me sinto bem em ver gente como o Eustáquio, o Rafa Cruz, Evelling, a Luka... Mas podemos ter mais gente fazendo coisas legais.

R.B.: A quem diga que o RPG é algo popular, mas ele chega as camadas mais pobres da população?

Luciano Jorge de Jesus: Não sei. Acho que sim. O Jorge Valpaços faz muito evento legal longe dos centros. Mas, estamos falando do RPG no país da fome. Tem gente que de fato não vai se preocupar com RPG porque tem que colocar comida em casa. Lazer não é direito em nosso país. Se fosse uma cesta básica teria um livro do Jorge Valpaços, ou um livro do Victor Hugo, ou um quadrinho do Maurício de Souza. Mas, não é assim. Então, acho que fazemos muita coisa apesar de sermos um país rico, mas com sua renda super mal distribuída. Quem desenha jogo, ou tem canal não precisa ficar ofendido quando eu falo que não vivemos era de ouro. Vivemos um momento especial no RPG no país que a comida é cara, o gás custa quase 100 reais. Isso é resistência também.


R.B.: É possível popularizar os RPGs a tal ponto de ser uma cultura para todos os públicos independente da sua classe social e grupo racial?

Luciano Jorge de Jesus: Uma coisa que eu sempre falo. Não quero ver todo mundo jogando RPG. Quero que as pessoas entendam que o lazer, o tempo livro e o divertimento são direitos e que dessa forma devemos lutar por isso, como lutamos contra o racismo, o machismo, contra outras opressões. E aí eu não me importo se o lazer da pessoa é um jogo de RPG ou um futebol informal. Então assim como é possível popularizar o esporte é também possível fazer o mesmo pelo RPG. Mas para isso algumas questões precisam ser superadas enquanto algumas reflexões sobre acesso precisam ser enfrentadas.

R.B.: Como surgiu o convite RPG Indagações e por que falar sobre Afrofuturismo?

Luciano Jorge de Jesus: O Max e a Stella se apresentaram durante o diversão offline de 2019. A ideia era produzir um livro semelhante ao RPG Caracterização, com textos que ajudassem a pensar no RPG para além das mecânicas de jogos e tudo mais. Max e Stella estavam puxando a Editora CHA (Contando Histórias Alternativas) e eu gostei da ideia, pois vi ali uma ideia muito boa para pensar em minorias políticas em outros jogos e de RPG. Então rolou o convite para escrever algo no livro que você citou.


R.B.: Wakanda Forever é realmente para sempre, ou precisamos investir mais em mídias que valorizem a negritude?

Luciano Jorge de Jesus: Eu acho que precisamos seguir atrás de nossas perguntas. Por mais que eu ame Pantera Negra, eu ainda noto aquele filme, que é muito importante para nós como um produto pensado a partir do olhar afro-americano. E o olhar afro-brasileiro precisa dialogar com as suas próprias questões, algo que quem veio antes da gente fez muito bem. Precisamos conhecer melhor a história de gente como Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Dona Lia de Itamaracá... isso não significa esquecer que a diáspora nos convida a solidariedade com as lutas nos estados unidos, mas também no Haiti, na Colômbia, na República Dominicana, no Peru, no Chile, além dos países do continente africano. Mas precisamos fazer isso sem esquecer de nossas trajetórias, histórias, memórias... Mas eu penso que estamos caminhando.

R.B.: Estamos chegando ao fim. Que mensagem gostaria de deixar para nossos leitores?

Luciano Jorge de Jesus: É importante tomar o RPG como mais uma prática legal. Existem outras e tudo bem se alguém não gostar. O mais importante é refletir sobre a forma como o RPG toca a nossa realidade. Será que jogo sempre com as mesmas pessoas? Será que meu espaço, meu coletivo, meu grupo, pensa em agregar pessoas que são diferentes do que estou acostumado. Refletir sobre isso não é tornar nada pessoal. É mais do que isso, é a possibilidade de atuar contra uma estrutura. Podemos fazer alguma coisa. Mas é preciso interesse.

RPGames Brasil: agrademos a grande entrevista que nos concedeu, gentilmente. Esperamos muitos sucessos decisivos nos seus jogos e poucas falhas críticas.



2 comentários:

  1. Parabéns pela entrevista Filipe, mandando super bem.

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    1. Obrigado! Todos meus agradecimentos ao Luciano que contribuiu imensamente com o blog.

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