Bruno Sathler em… é pro Fantástico?!?


por Filipe Lutalo

O RPG solo deixou de ser apenas uma curiosidade dentro do hobby e passou a ocupar um espaço cada vez maior entre jogadores e mestres. Parte desse crescimento no Brasil passa pelo trabalho de criadores que ajudaram a apresentar essa modalidade ao público de forma acessível, dinâmica e visualmente envolvente. Entre esses nomes, um dos destaques é Bruno Sathler.

À frente do canal Dados & Danos e da 101 Games, Bruno construiu um projeto que une RPG de mesa, narrativa audiovisual e design de jogos. O cuidado com edição, animações e cenas ilustradas transformou o canal em uma referência para quem busca experiências mais imersivas — especialmente dentro do RPG solo.

Mas a trajetória vai além da produção de conteúdo. Ao lado de Jefferson Pimentel, Bruno também participou do desenvolvimento de jogos e sistemas como For the Quest e Solo10, buscando criar materiais acessíveis, dinâmicos e pensados para a realidade do público brasileiro.

Nesta entrevista para o “É pro Fantástico!?!”, Bruno fala sobre o crescimento do Dados & Danos, a evolução da 101 Games, o impacto do RPG solo na comunidade e os desafios de transformar paixão em um projeto profissional — sempre mantendo uma ideia central: criar algo que ele mesmo gostaria de assistir e jogar.

RPGames Brasil: Para começar, o canal Dados & Danos cresceu muito nos últimos anos. Como surgiu a ideia do projeto e em que momento você percebeu que ele estava alcançando um público maior?

Cara, vou te dizer que nunca tive essa pretensão de alcançar público, eu queria era criar algo diferente, que EU gostasse de assistir. Comecei como todo canal de YT começa, a diferença que eu queria fazer com profissionalismo. Por isso do cenário, da edição e da animação. O público veio aos poucos, e os comentários me disseram que eu estava no caminho certo.

R.B.: O canal se destaca por trazer cenas ilustradas e elementos visuais que aumentam a imersão. Como foi o processo de desenvolver esse estilo e qual o impacto disso na experiência do público?

Isso foi uma vontade minha desde sempre. Sou fã de animação 2d, e sempre quis fazer algo assim. Eu ainda estava aprendendo a fazer, mas uma oportunidade que tive para aprender ainda mais foi em 2013 quando o Jovem Nerd ia entrar em pausa e perguntou se eu não queria fazer um Motion Comic para colocar no canal deles, pra mim foi incrível e um aprendizado e tanto. Aí fui melhorando e pensando em como fazer um conteúdo meu com essas animações. Fiz um piloto para teste chamado “The Quest” baseado no Heroquest, mas ainda nao era o que eu tinha em mente… Foi quando começamos a jogar RPG depois de anos que senti que podia ser por esse caminho… eu conheci o Game Chinchila e me identifiquei demais com o modelo editado. E quando assisti um vídeo chamado HARMON QUEST que vi como adicionar as Animações. E elas ajudam demais na imersão do espectador na história, ajudam nas piadas e criam situações bem divertidas. O público gosta demais, mas é o processo que mais da trabalho.

R.B.: Muitos conteúdos mostram tanto RPG em grupo quanto RPG solo. Como você enxerga as diferenças entre essas duas experiências e o que te motivou a explorar também o jogo solo?

O objetivo é contar uma história, e essas duas modalidades me dão essa possibilidade. O rpg em grupo é incrível, pois você tem outras vozes contando a história com você, criando situações incríveis! Mas eu acabava ficando dependente deles, organizando agendas, horários… o inimigo padrão dos Jogadores hehehe. Eu não conhecia o RPG solo, foi meu sócio, o Jefferson Pimentel, que me mostrou a ferramenta durante a produção do nosso primeiro jogo, o Vampiro - Sozinho na Escuridão. Comecei a jogar e vi que tinha como criar uma história sem precisar dos demais jogadores. Ainda é uma modalidade nova pra muitos, mas é uma ferramenta incrível, não só pra jogadores mas para mestres também.

R.B.: O RPG solo ganhou muita força nos últimos anos, especialmente no Brasil. Na sua visão, o que explica esse crescimento e qual o papel do seu conteúdo nesse movimento?

Tem coisas que não tem explicação, mas acho que com a exposição da ferramenta solo em canais e muitos jogos adicionando, acho que isso acaba criando uma curiosidade em jogadores, que, ao conhecerem a ferramenta, acabam vendo suas vantagens. Acho que o RPG Solo irá crescer ainda mais! Até em boardgames há demandas, muitos pedem jogos de tabuleiro com modalidade solo, pois nem todos tem a disponibilidade de amigos para jogar.

R.B.: A 101 Games nasceu como um selo independente e hoje possui diversos títulos publicados. Como foi a transição de criador de conteúdo para editor e empreendedor no mercado de RPG? 

Ainda estou nessa transição (hehehe) eu adoro criar jogos, trabalhar nas edições dos materiais, e faço isso até hoje, mas o desafio é tornar o negócio sustentável. Antes, fazíamos sem pretensão, apenas por gostar e com esperança de ganhar um valor extra no fim do mês. Mas percebemos que a demanda aumenta a cada momento, e por isso estamos profissionalizando todo nosso processo. Com novos jogos, novos game designers brasileiros, incentivando o mercado nacional e expandindo para o mundo. Hoje conto com a parceria da New Order, que entrou com a expertise deles em distribuição e logística. Algo que ajuda demais, pois não temos que ir nos correios mais (hehehe).

R.B.: Jogos como For the Quest mostram uma proposta acessível, com suporte inclusive para partidas solo. Como vocês pensam o design de jogos para alcançar tanto iniciantes quanto jogadores experientes? 

Eu sou mais simplista, gosto de regras fáceis e jogos dinâmicos. Não tenho uma parede de jogos em casa, primeiro porque não tenho espaço, mas principalmente pelos valores… não tem como negar que nosso hobby é caro. Jogos sendo vendidos a mais de 1000 reais em um pais com salários baixos… é difícil se manter no hobby em alguns momentos. Sempre olhamos para o mercado e vimos a necessidade de jogos mais acessíveis, mas sem perder qualidade. A proposta do For the Quest foi tentar fazer um jogo bonito, com qualidade de materiais e regras simples, e tudo isso a um preço IMPOSSÍVEL no mercado. Muitos até achavam que era golpe, que não tinha como… bom, fizemos e entregamos! Hoje, ainda temos muitos pedindo por ele. Mas uma coisa que atrapalha é a mudança dos valores das matérias primas… isso tem influenciado muito. Hoje não conseguimos mais fazer o valor que fizemos na primeira caixa, papel parece ser algo barato, mas não é, e no Brasil há muitos impostos que influenciam no valor dos produtos. Mas continuamos lutando para conseguir sempre valores mais acessíveis. Temos projetos para produtos mais "Premium” mas nunca esquecendo do público brasileiro.

R.B.: O sistema Solo10 foi disponibilizado de forma aberta, permitindo que outros criadores desenvolvam seus próprios cenários. O que motivou essa decisão e como você vê o impacto disso na comunidade? 

Ah isso foi algo para incentivar criadores brasileiros mesmo. Quando lançamos o sistema, recebemos muitos feedbacks incríveis da galera. Decidimos então liberar para que outros também criem seus jogos. Isso não só fortalece o sistema e a 101 Games também.

R.B.: A 101 Games possui uma forte linha de produtos voltados ao horror, incluindo coleções em PDF com diferentes criaturas e temáticas. Como surgiu esse interesse pelo horror e o que torna esse gênero tão atraente para o RPG? 

Olha, ai é preferência do Jefferson (hehehe) eu sou meio medroso pra jogos de terror. Mas ele sempre fui fã de Vampiro, e é normal inclinar um pouco para temas que gostamos. Eu sou mais da pegada da aventura do Conan e do Heróis e Hordas (hehehe).

R.B.: Muitos dos seus projetos dialogam diretamente com a comunidade, seja por feedback, playtests ou conteúdo online. Como essa interação influencia o desenvolvimento dos jogos e do canal?

Po, influenciam 100%! afinal, a comunidade é que nos criou. Começamos com eles e estamos com eles sempre, ouvindo, jogando ideias juntos. Eles tem a visão de fora, muito importante pra gente. Não é que necessariamente iremos atender TODAS as demandas deles, mas sempre estamos ouvindo. No canal é a mesma coisa, mas primeiramente eu faço PRA MIM, pois se eu não assistiria porque eu gravaria? Isso é uma bússola de qualidade também.

R.B.: Obrigado pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional de RPG. Que conselho você daria para quem quer criar RPG no Brasil hoje?

Jogue muito, leia muito, e, principalmente, esteja aberto a críticas, sejam elas positivas ou negativas, pois elas é que vão nortear seus projetos.


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