Igor Teuri (Dados Críticos) em… É pro Fantástico!?!


Do “comece mesmo sem saber tudo” às ferramentas que simplificam a mesa: como o Dados Críticos ajuda a formar uma nova geração de jogadores e mestres de RPG.

por Filipe Lutalo

O RPG de mesa vive um momento de expansão — novos jogadores chegam todos os dias, impulsionados por conteúdos digitais, ferramentas online e uma comunidade cada vez mais ativa. Nesse cenário, iniciativas que ajudam a tornar o hobby mais acessível fazem toda a diferença.


É nesse ponto que o trabalho de Igor Teuri, à frente do projeto Dados Críticos, ganha destaque. Com uma proposta prática e direta, Igor transforma dúvidas comuns de mestres e jogadores em guias, ferramentas e conteúdos que facilitam a entrada — e a permanência — no RPG.

Nesta entrevista, ele compartilha sua trajetória, os bastidores da criação do projeto e sua visão sobre o presente e o futuro do RPG no Brasil.


RPGames Brasil: Para começar, conte um pouco sobre você. Quem é Igor Teuri e como o RPG entrou na sua vida?
Sou psicólogo educacional e clínico. Jogo RPG há mais de 15 anos de forma regular, geralmente na função de mestre, onde mais me divirto. Conheci o RPG através das antigas comunidades do Orkut. Como não conhecia ninguém próximo que jogasse ou conhecesse jogo, jogava primariamente online nos fóruns. Na adolescência comecei a querer no modelo tradicional, e daí fui ler os livros e assumir a função de mestre pra introduzir meus amigos ao jogo.
R.B.: O projeto Dados Críticos se tornou uma referência para jogadores que buscam ferramentas e conteúdos úteis para suas mesas. Como surgiu a ideia de criar o projeto?
Após o lançamento do D&D 5e em meados de 2014, eu tomei como missão introduzir o máximo de pessoas possíveis ao RPG. Daí comecei a entrar em grupos do Facebook procurando jogadores iniciantes para mestrar para eles. No entanto, surgiu um grande problema que era sempre ter que ficar repetindo as mesmas instruções sempre. Como mestrei muitas mesas, muitas mesas mesmo, eu acabei criando alguns guias escritos. E por volta de 2019, comecei a fazer alguns desses guias em vídeo. Muitas pessoas começaram a pedir outros vídeos, com outras temáticas, e dai decidi transformar isso em algo fixo com o canal, mas mantendo meu objetivo inicial que era introduzir o RPG para o maior número de pessoas possível.
R.B.: O site e seu canal oferecem diversas ferramentas para ajudar mestres e jogadores. Qual foi a principal necessidade da comunidade que você tentou resolver ao criar o Dados Críticos?
Dentre os vários tópicos tratados, as maiores necessidades são: Como começar a mestrar; como aprender as regras e conseguir um grupo; e como usar as ferramentas existentes para facilitar o jogo.

R.B.: Criar ferramentas digitais para RPG como: Ferramentas de Segurança para RPG, Criador de Tokens para RPG e Guia de Mapeamentos de Masmorras — envolve tanto design quanto tecnologia. Como foi o processo de desenvolvimento dos projetos?
Para mim surge muito naturalmente, uma vez que as demandas vão se apresentando através das minhas próprias necessidades e da comunidade do canal. Em muito dos meus projetos, eu começo sem nem saber direito como executar. Uso o projeto para aprender no processo. Foi assim que aprendi a diagramar, escrever aventuras e sistemas, editar vídeos e podcast, e tudo mais que tenho produzido. Acho que o próprio processo de produção ensina muito, então prefiro já fazer com aquilo que tenho do que ficar esperando as condições perfeitas para só então executar.

R.B.: Na sua visão, quais são os maiores desafios que mestres de RPG enfrentam hoje — e como ferramentas online podem ajudar?

Acho que o maior desafio é a autocobrança e comparação. Existem hoje diversos conteúdos e mesas de RPG em live e gravadas. Isso é ótimo! O problema é que muitos iniciantes ficam se comparando com outros mestres que assistiram, ou que criaram uma imagem idealizada em suas cabeças. Isso gera uma autocobrança gigantesca, como se o mestre fosse o único responsável por causar a diversão do grupo, quando na verdade isso é uma mentira: a diversão é responsabilidade de todos os jogadores em conjunto. Eu vejo que isso trava muitos iniciantes, achando que precisam saber todas as regras, todas as técnicas, ler todos os livros. E na verdade tudo o que precisam fazer é começar, mesmo sem saber tudo. É certeza absoluta que vão errar no processo, isso já é esperado e não dá pra fugir. Então melhor aprender fazendo.
R.B.: Fale um pouco do sistema FRACTAL. Que lacunas ele cobre? Quais as suas expectativas com ele?
O Fractal surge de uma parceria minha com o Walter Licínio, que já tinha uma versão anterior e mais básica do sistema. Ele surge para cumprir uma necessidade que eu sempre senti: um sistema narrativo simples que dá pra adaptar pra qualquer mundo ou cenário sem ter trabalho. Ele é focado em aventuras curtas e oneshots, e a proposta é você experimentar jogar RPG em mundos que você está animado porque viu em séries, filmes, livros, animes, e gostaria de jogar nesse mundo sem precisar criar adaptações enormes. O Fractal é modular e você usa pedaços do sistema de regras de acordo com o que precisa para o mundo, daí o nome fractal. Já lançamos o SRD básico, que tem somente 3 páginas. A expectativa é que lancemos o livro final esse ano, estamos no processo de escrita.

R.B.: O RPG de mesa passou por uma grande transformação nos últimos anos, com mesas online, novas plataformas e criadores digitais. Como você vê essa evolução?

Vejo como algo natural do hobby. Desde sempre o RPG se mostrou como um hobby que valoriza muito o Faça Você Mesmo. E nada mais natural que usar o apoio de tecnologias para isso. Existem diferentes tipos de jogadores e interesses dentro do hobby, e as tecnologias facilitam mais ou menos alguns deles. Isso não exclui quem prefere o clássico jogo manual. Sinto, no entanto, que é necessário ter atenção para como essas tecnologias são usadas. Elas são ferramentas, e portanto tem um objetivo. Eu já cometi o erro de tentar usar tantas ferramentas de automação, que no fim o RPG estava em segundo plano. Hoje uso aquilo que me ajuda, mas sem deixar que o RPG a interpretação se torne algo secundário. Um exemplo claro são as inteligências artificiais. Elas são ótimas para automatizar tarefas burocráticas, e para ajudar com brainstormings. Mas infelizmente vejo muitas pessoas as utilizando como uma verdadeira muleta, criando tudo através de IA, e transformando o Faça Você Mesmo do RPG em um Faça AI pra Mim.
R.B.: Você acompanha muitos sistemas e estilos de jogo. Existe alguma tendência de design ou forma de jogar que você acredita que deve crescer nos próximos anos?
Gosto muito de estudar e testar diferentes estilos de jogos. Acredito que o RPG na modalidade Solo e Cooperativo Sem mestre (GMLess) tendem a crescer, também como um sintoma de nosso tempo: falta de tempo e dificuldade para agenda. Sem contar que tenho visto cada vez mais o uso de tecnologias como IA tentando simular o papel do mestre. Também acho que teremos uma onda de novas experimentações de sistemas de regras, aproveitando a lacuna do D&D 5.5 após as polêmicas com a Licença OGL. Temos visto uma verdadeira explosão de criação de sistemas independentes e financiamentos coletivos. Resta saber se isso é apenas uma espécie de “bolha”, ou se vai se sustentar a longo prazo. Vejo que os jogadores estão percebendo cada vez mais que RPG é algo que demanda tempo, e é impossível jogar tudo acompanhando o ritmo dos lançamentos. O RPG também traz uma questão de colecionismo para muitas pessoas. E talvez seja isso que mantenha essa bolha crescendo cada vez mais.
R.B.: Como tem sido a interação da comunidade com o Dados Críticos? Houve algum feedback de usuários que te marcou particularmente?
Tem sido maravilhosa. Sou muito orgulho de ter conseguido formar uma comunidade que cresce a cada dia mais mantendo valores que são importantes para mim. Temos uma comunidade acolhedora com pessoas que pensam diferente, curtem outros estilos de jogos, e que uma pluralidade e diversidade incrível. Isso ajuda a fortalecer cada vez mais o nosso hobby. Fique muito feliz em poder conhecer muitos dos seguidores pessoalmente no último Diversão Offline que participei em São Paulo. Ganhei um Goblin de Ouro, e o várias pessoas me pararam para falar como o meu trabalho foi essencial para que elas pudessem começar a jogar ou retornar para o hobby. Me sinto muito grato por tudo isso.

R.B.: Hoje existem muitos criadores de conteúdo de RPG no Brasil — canais, blogs, podcasts e streamers. Como você vê o papel desses criadores no fortalecimento da comunidade?

Como importantíssimo. Vejo o RPG como um meio muito nichado. É o nicho do nicho. E por isso é cada vez mais importante nos fortalecermos enquanto comunidade, ajudando uns aos outros, para assim podermos crescer. Sempre que posso, tento fazer colaborações de conteúdos com produtores com números menores que os meus, sempre indicando que meus seguidores os conheçam. Gostaria muito que alguém tivesse feito isso comigo. Gosto bastante de discutir e dar dicas sobre produção de conteúdo, e por isso fiz vários vídeos no canal sobre como fazer live de RPG, como criar podcast, etc. É óbvio que discordâncias e visões de mundo diferentes vão existir. Mas isso não me torna adversário do meu colega produtor, apenas alguém que pensa diferente.
R.B.: Olhando para o futuro, existem novos recursos ou projetos que você pretende desenvolver para o Dados Críticos?
Tem muita coisa legal por vir. Com a ajuda da comunidade, finalmente consegui comprar um novo PC e equipamentos, e isso vai transbordar para os conteúdos. Tenho sentido que preciso mudar um pouco a forma como apresento meus conteúdos para atingir pessoa fora da bolha do RPG. Acho que é uma tendência que a medida que a gente se especialize, comece a usar mais jargões e falar mais para quem já é da comunidade. Não quero deixar de fazer isso, mas vejo que extremamente importante também atingir pessoas que tem potencial de gostar de RPG, mas que ainda não conhecem.
R.B.: Obrigado pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional de RPG. Que conselho você daria para quem quer criar RPG no Brasil hoje?
Muito obrigado pelo convite, estou sempre aberto se puder contribuir com algo. Pra quem quer começar a criar: comece! Tire suas ideias do papel. Mesmo que já exista conteúdo parecido, talvez a sua perspectiva seja o diferencial. Felizmente tem muito material para te ajudar nesse início, lá no canal por exemplo tem diversos guias sobre criação de conteúdo e de game design. Não espere ter as condições ou equipamentos ideais pra começar, senão você será uma aventureiro de nível 1, usando armaduras e armas caras, mas que não sabe usá-las. Aproveite o processo e evolua com ele. Valeu demais! Sigam o Dados Críticos nas redes pra acompanhar as produções futuras.

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